Carnaval indo embora, Bolsonaro tensionando mais uma vez a nossa democracia e tento escrever algo sobre a lamentável situação a que são relegados os vendedores ambulantes no carnaval de Salvador. Falo dos ambulantes por conta de alguns textos na imprensa soteropolitana mas quase todos os que trabalham no carnaval o fazem em condições sub humanas. E sob o nosso olhar complacente.

Como moro próximo ao circuito do carnaval, acompanho de perto o problema. Que, inclusive, já foi mais dramático. No Canela e entrada do Garcia a quantidade de vendedores de cerveja diminui a cada ano. Enquanto trios e blocos passam fica a impressão que o problema é minimizado: é a tal da invisibilidade do trabalhador de apoio à festa. Nossos olhos estão voltados para os artistas e, eventualmente, para a PM já que ninguém quer “receber a galinha pulando”.

Mas quando a festa acaba a situação é muito triste : pessoas dormindo amontoadas, dias sem tomar banho, dentes escovados junto ao meio-fio, sono reduzido pra não perder o momento da passagem do caminhão do gelo e da cerveja.

Solução : a estruturação de uma base de apoio onde estes trabalhadores pudessem recobrar as energias, fazer uma refeição sentado numa mesa e cuidar da higiene pessoal. O antigo colégio Odorico Tavares seria o espaço ideal pela amplitude e pela localização estratégica em relação a todos os circuitos da folia. Por óbvio excluam Pelourinho e Nordeste de Amaralina. Esta facilidade logística levou o “Odorico” a funcionar como base de apoio dos serviços de saúde e de segurança pública até porque a saída pelo Vale do Canela facilita a movimentação.

E no restante do ano : funcionaria muito bem como um centro de educação profissional para formar mão de obra para a “economia da festa”. Que não se resume só ao carnaval; temos os ensaios de verão, forró pré São João, festas de largo, final de ano, paredões nos bairros, Salvador Fest, República do Reggae e festas menores.

Enfim, tratar a “economia da festa” como política pública voltada para a geração de trabalho e renda com condições de trabalho dignas e inclusão social. E não como, usando a expressão popular, um “cacete armado”. Afinal queremos o conforto dos camarotes para todos, principalmente para os que vivem do trabalho. E que o “trabalho decente” seja bem mais do que tema de propaganda oficial.