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Vamos debater a 12 Plenária da CUT ? estréia dia 3 de agosto

Neste 3 de agosto, às 20 horas, comento a tese guia aprovada pela Direção Nacional da CUT

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Greve dos caminhoneiros e desafios para o movimento sindical

“A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue”

Cancion Por La Unidad Latinoamericana
Pablo Milanes – Chico Buarque

Não pretendo nestas poucas linhas problematizar sobre locaute X greve. Muito menos sobre o caráter autônomo ou não da atividade econômica que envolve os caminhoneiros. Existe uma política de preços da Petrobras que reduz as margens de lucro de quem lida com o transporte automotivo. Como a economia está parada não existe a possibilidade imediata de repassar o impacto do aumento continuado de preços para os próximos elos cadeia produtiva. Portanto existem razões para greve de caminhoneiros e não só: moto-taxi, motoristas de aplicativos, transporte escolar e taxis convencionais são prejudicados.

Não conheço detalhes da composição do setor de transporte de cargas. Vejo alguns números apresentados nas redes sociais mas tendo a acreditar que não se pode dividir o setor em autônomos e empregados (mesmo que com vínculos camuflados). Acho que a composição das relações de trabalho no Brasil caminha para uma complexidade tal que cria dificuldades de compreensão e, por consequência, na organização político-sindical destes trabalhadores. A despeito da complexidade a política de preços ajudou na criação de uma pauta que unificou os trabalhadores do setor: a redução do preço do diesel.

Pauta unificada, faz-se necessário que ela seja apresentada a quem tenha alguma possibilidade de resolver o problema, no caso o Governo Federal, controlador (não sei se é este o termo correto) da Petrobrás. E apresentada por alguma entidade com um mínimo de representatividade. Aí entra em cena a tal da Confederação Nacional dos Trabalhadores Autônomos. Que provavelmente não deve representar “trabalhador autônomo” algum. Quem conhece minimamente a estrutura sindical brasileira sabe que a representatividade real é o requisito menor para se constituir uma entidade. O que importa é a capacidade de responder a requisitos burocráticos mínimos e um punhado de incautos de boa fé para atestarem que a entidade existe. Portanto este é, historicamente, um espaço para proliferação de oportunistas a serviço das elites, financeiras ou produtivas. Aliás a CUT nasce para combater este modelo de representação. Mas, apesar dos pesares, a tal Confederação tem amparo legal para propor a agenda.

Não tenho dúvidas que esta Confederação representa interesses de empresários do setor de transporte da cargas que vive da exploração dos caminhoneiros. Mas que neste momento tem um argumento que convence os explorados a aderir às teses dos seus algozes: a redução das margens de lucro torna a atividade menos atraente e a conta vai ser paga pelo elo mais frágil, o caminhoneiro. Como não existe organização sindical de caráter classista ou oposição à esquerda o trabalhador não tem escolha.

Já o caminhoneiro “autônomo” vive uma situação mais frágil. A estrutura sindical brasileira se forma com a modernização capitalista no século passado e se ancora no trabalho assalariado. O trabalho autônomo era tido como profissional liberal que, via de regra, tinha rendimento elevado e os realmente “autônomos” não tinham representação expressiva. O perfil da ocupação muda, cresce o empreendedor, o “conta própria” e suas derivações mas a organização sindical continua atrelada ao trabalho assalariado. E aí quem aparece para apresentar uma pauta que contempla o caminhoneiro “autônomo” ? A tal Confederação.

Vivemos agora um impasse: a CNTA negociou a pauta, construiu uma proposta junto ao Governo Federal mas não teve autoridade política para fazê-la aceita pelo conjunto dos caminhoneiros. Temos então um vazio negocial: uma categoria mobilizada mas sem representação política com legitimidade para negociar e com poucas possibilidades de se organizar rapidamente. Um governo sem autoridade para construir saídas e um movimento sindical perplexo pois não tem inserção neste segmento aliado à uma rejeição já que não se apresentou quando o problema era gerado.

A saída: vai depender de vários fatores. Até o momento a população é majoritariamente simpática aos caminhoneiros mesmo com os prejuízos do desabastecimento. Esta simpatia dura até quando? O Governo Federal se sente fortalecido o suficiente para adotar uma posição de força? Ou recuará na política de preços da Petrobras e por tabela nas ações para a privatização da empresa?

Outras categorias podem engrossar os protestos ? – em Salvador, pelo menos, tivemos na quinta feira, 24, manifestações de moto-taxi e motoristas de aplicativos (UBER). Grupos de trabalhadores que não tem organização que os represente de fato e muito menos patrões para negociar. Mas tem a capacidade de impactar no cotidiano da cidade quer através de protestos quer através da negação dos serviços numa cidade com sérios problemas de mobilidade. Hoje, sábado, 25, motoristas de transporte escolar foram até os pontos de paralisação na BR 324 levar água e refeições para os caminhoneiros parados. A conferir …

Concluindo :

  • muito se falou e escreveu até o momento sobre o “precariado”, a massa de trabalhadores por conta própria sem proteção legal e social. Mas pouco se fez para a sua organização política ou inclusão na estrutura do movimento sindical brasileiro. E agora parte deste segmento sente a necessidade de se mexer para minorar os seus problemas. Talvez daí surja alguma novidade que areje o movimento sindical brasileiro;
  • caminhoneiros são mais próximos da “direita” é uma afirmação precipitada. Tem dado demonstrações neste sentido. Mas a “esquerda” principalmente a sindical não demonstrou disposição e disponibilidade no encaminhamento da pauta da categoria. Se é tarde ou não para esta aproximação se dar, só a história vai dizer;
  • se as centrais sindicais não fizerem um esforço de aproximação com os trabalhadores que estão na informalidade e com os microempreendedores individuais correm o risco de perderem relevância política. Esta aproximação implica na elaboração de novas práticas, discursos e formas de organização.

 

 

 

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